Acabou meu shampoo. Como toda mulher que se preza, não vou lavar meus cabelos com sabonete. Dirijo-me a um supermercado. Não sem antes passar aqui na mercearia da frente de casa e achar pouca a oferta de produtos. Na verdade, pensando melhor, não quero mais ir ao supermercado. Vou num hipermercado e aproveito para fazer o “rancho” das coisas básicas que garantem a sobrevivência de uma mulher solteira.
Nunca dou sorte, ou melhor, sou como a maioria dos brasileiros que recebem entre final e começo de mês. Encontro o hipermercado abarrotado de gente. Mulheres com crianças que querem comprar e comer tudo que veem nas prateleiras, maridos que tentam controlar as esposas e as finanças da família, filhas que levam as mães para fazer rancho e aproveitar-se de suas carteiras. Isso tudo é fichinha. Meu problema maior não é desviar o carrinho e guiá-lo mesmo sem habilitação. É escolher entre os dezessete tipos de leite, os quatro tipos de ovos e os nove tipos de limpadores de piso que prometem deixar o assoalho da minha casa mais brilhante que um espelho. E a quantidade de shampoos para tipos de cabelo que eu nem sabia que existiam? Chega a dar saudade da minha infância quando a mãe pegava na prateleira sempre o mesmo frasco entre os considerados três melhores (únicos).
Você deve estar pensando que é o mínimo esperado de um hipermercado esse volume de ofertas, até porque eles vendem para um público diverso e com perfis não menos distintos. Mas se parar para pensar verá que essa grande variedade não é exclusividade desse tipo de estabelecimentos. Você decide comer uma pizza. A quantidade de sabores, recheios de bordas e opções chega a engordar antes da primeira mordida. E comprar um simples tênis para caminhar e melhorar a aerodinâmica das curvas? Milhares de modelos, amortecedores, cores, materiais que exigem uma maratona na hora da decisão.
Em quase todas as áreas, o mercado está cada vez mais segmentado o que dificulta e muito nossa vida ultimamente. Para que facilitar se a gente pode complicar? E isso não somente em questões que envolvem “dindin”. Como escolher qual o melhor carinha para dividir nosso colchão gostoso e lençol cheirosinho?
Tem aquele amigo que sempre te olha de um jeito diferente e vive dando letrinha. Você acha-o um queridão e gostam das mesmas coisas. Tem o carinha que você conhece do futebol, que torce pro mesmo time “Campeão de Tudo” como você e tem uma bundinha bem interessante. O vizinho que é atencioso, sempre segura a porta e lança um olhar daqueles que faz tremer as pernas. E ainda, o carinha que você ainda não conhece, mas pode conhecer na balada. Ou no trabalho. Quem sabe no supermercado.
Difícil escolher e ser fiel dessa forma, não é mesmo? Numa leitura sobre marketing descobri uma nova vertente do consumidor que é de ser fiel a variedade, buscar sempre o diferente para experimentar o novo. Um amigo meu sempre diz que festa boa é aquela onde “ninguém é de ninguém”. A gente não sabe mais em qual estágio de relacionamento as pessoas estão, chegamos a acompanhar o minuto a minuto pelo facebook, onde a maioria reluta em marcar um status como “relacionamento sério”. Vai que aparece uma oferta melhor?
Eu invejo a minha mãe e sua fidelidade não somente ao meu pai, mas as suas marcas fundamentais. Tem o OMO que ela não troca por nada, o café Melitta que tem um sabor diferente de todos os demais. O Bombril e suas mil e uma utilidades (olha que não estou ganhando nada pelo jabá). As opções aumentaram, a diversificação também, e nossa relação com as marcas ficou mais superficial, assim como nossas relações humanas. Trocamos de paixões como trocamos a marca do arroz.
Procuramos sempre pelo novo e não insistimos mais em batalhar para manter uma relação. Isso nos faz mal? Tenho certeza que sim. Só que no momento tenho que me ocupar com a decisão se levo o shampo que tira o frizz de cabelos cacheados ou o que tem um choque térmico e promete a regeneração dos fios.











